quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Resenha de "Fahrenheit 451"

A temperatura em que o papel incinera



Sinopse:
Imagine uma época em que os livro configurem uma ameaça ao sistema, uma sociedade onde eles são absolutamente proibidos. Para exterminá-los, basta chamar os bombeiros - profissionais que outrora se dedicavam à extinção de incêndios, mas que agora são os responsáveis pela manutenção da ordem, queimando publicações e impedindo que o conhecimento se dissemine como praga. Para coroar a alienação em que vive essa nova sociedade, anestesiada por informações triviais, as casas são dotadas de televisores que ocupam paredes inteiras de cômodos, e exibem "famílias" com as quais se podem dialogar, como se estas fossem de fato reais. Este é o cenário em que vive Guy Montag, bombeiro que atravessa séria crise ideológica. Sua esposa passa o dia entretida com seus "parentes televisivos", enquanto ele trabalha arduamente para comprar-lhe a tão sonhada quarta parede de TV. Sua vida vazia é transformada, porém, quando ele conhece a vizinha Clarisse, uma adolescente que reflete sobre o mundo à sua volta e que o instiga a fazer o mesmo. O sumiço misterioso de Clarisse leva Montag a se rebelar contra a política estabelecida, e ele passa a esconder livros em sua própria casa. Denunciado por sua ousadia, é obrigado a mudar de tática e a buscar aliados na luta pela preservação do pensamento e da memória. "Fahrenheit 451" é não só uma crítica à repressão política mas também à superficialidade da era da imagem, sintomática do século XX e que ainda parece não esmorecer. (...) [SKOOB]

Publicado pela primeira vez em 1953, e ainda atual, é uma das 3 distopias principais (as outras 2 são "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, e "1984", de George Orwell), servido de referência (total ou parcialmente) a distopias modernas, como o livro "Destino", de Ally Condie, ou o filme "Equilibrium", de 2002. É uma obra fictícia, ambientada em um futuro hipotético, onde a sociedade aboliu completamente os livros, incinerando os exemplares remanescentes (o papel incinera a 451°F, o equivalente a 233°C). Podemos tirar lições importantes desta estória.

O personagem principal é o bombeiro Guy Montag que, como o nome de sua profissão indica (fireman, em inglês), lida com fogo, mas não como imaginamos. Sendo as edificações feitas de material a prova de incêndios, os bombeiros se encarregam de incinerar os objetos que poriam fim às felicidade e tranquilidade da população: livros. No mundo de Montag, os livros são considerados prejudiciais, em especial as obras de ficção. A simples ideia de uma pessoa sozinha tomar conhecimento de algo que é "mentira" é considerada perigosa, pois permitiria que esse indivíduo passasse a pensar de forma contrária ao normal, entrando em conflito com seus semelhantes. Desta forma, as pessoas sabem que estes objetos são perigosos, portanto proibidos.

A vida de Montag, ao logo deste livro, sofrerá uma mudança drástica. Esta mudança é ilustrada por duas personagens distintas: Mildred e Clarisse. A primeira é a esposa de Guy, que passa os dias entretida com atrações televisionadas e as noites, enquanto dorme, ouve sua "radioconcha" (uma espécie de rádio-fone de ouvido). Clarice, por outro lado, é uma jovem que, diferente de seus colegas, prefere conversar e observar o mundo a seu redor. Guy e Clarice se encontram a primeira vez em uma noite, quando ele voltava do trabalho. Ela puxa conversa tratando de amenidades e assuntos que ele pouco se importava, como "se ele era feliz". A seguir, ao chegar em casa, ele encontra sua esposa, que acabara de sofrer uma overdose, algo considerado tão banal pela equipe de resgate que os procedimentos de salvamento são ministrado de forma mecânica pelos técnicos, sem a necessidade de contatar um médico.

Ao acordar, Mildred ignora completamente que tivesse exagerado nos comprimidos e volta ao seu cotidiano, assistindo a "família". Seus objetivos não estão relacionados a ter uma boa profissão ou uma família de verdade (rejeita a ideia de filhos), mas sim na tão sonada "quarta parede de TV", mesmo que seu marido ainda esteja pagando pela terceira parede (cada tela ocupa uma parede da peça, proporcionando uma imersão no enterimento ao telespectador). Entre o que ela assiste e ouve, sempre em alto volume, estão programas, músicas e comerciais agradáveis. Apesar da crescente movimentação de jatos militares, ela e suas amigas pouco se interessam se a guerra é iminente (mesmo uma delas sendo esposa de militar).

O comportamento e ambiente da Sra. Montag não é anormal. Nos trens, Guy e os demais passageiros são bombardeados com música e comerciais; os motoristas dirigem a centenas de quilômetros-horários, mantendo-se entretidos com a própria imprudência; e quando finalmente podem conversar, falam basicamente do trabalho ou daquilo que assistiram ou compraram. Há poucos momento de silêncio para uma pessoa poder simplesmente "pensar", pois isso poderia levar a infelicidade própria ou dos demais.

Clarice, entretanto, é diferente. Ela pertence a uma família que ainda cultiva o hábito de conversar simplesmente por "conversar", sem ter que tratar de um produto comprado ou atração anunciada. As breves conversas entre Guy e Clarice, entre a estação e sua casa, representam a ele momentos de felicidade que ele desconhecia, os períodos mais agradáveis de seus dias. Isso incita sua curiosidade sobre o porquê que objetos tão simples como os livros podem ser perigosos. Ao longo do tempo, ele passa a guardar para si parte do material que deveria destruir, levando a consequências graves à sua vida.

Em "Fahrenheit 451", o banimento dos livros não foi capricho de um líder autoritário, mas resultado das vontades dos grupos mais insatisfeitos da sociedade. Grupos que, sentindo-se agredidos por trechos de certas obras, clamaram que fossem editadas, reescritas, censuradas e, por fim, banidas. Com o tempo, cada livro que pudesse tornar partes da população insatisfeita foi sendo proibido até que, finalmente, todos foram eliminados. Mas esta busca pela felicidade do coletivo não se restringiu aos livros. Atrações televisivas, músicas, jogos, educação, serviços fúnebres,... tudo que pudesse, de uma forma ou de outra, desapontar a população foi adaptado ou eliminado. A sociedade coibindo a liberdade dela mesma.

Como todas as distopias, vê-se sinais dela dês de sua publicação até a atualidade. Comumente tomamos conhecimento de parcelas da população exigindo que certos jogos, filmes, músicas e livros sejam proibidos e destruídos (em fogueiras, por exemplo). Uma minoria barulhenta da sociedade impondo suas preferências e crenças perante os demais, quando bastaria não jogar, não assistir, não ouvir e não ler aquilo que desagrada. Mas, assim como em "Fahrenheit 451", sempre haverá quem enfrente a vontade dos críticos descontentes e desfrute em segredo seus jogos, filmes, músicas e, principalmente, livros.


O Filme de 1966


"Fahrenheit 451", de 1966, é um excelente filme, mas, por se tratar de uma ficção-científica européia dos anos de 1960, pode parecer monótona para o público atual. Dirigido pelo premiado diretor François Truffaut (de "A Noite Americana" e "O Último Metrô"), é estrelado por Oskar Werner (de "O Espião Que Saiu do Frio" e "Uma Mulher para Dois"), que interpreta o bombeiro Guy Montag, e por Julie Christie (de "A Garota da Capa Vermelha" e "Nova York, Eu Te Amo"), que interpreta tanto Clarice quanto a esposa de Montag (chamada de Linda, em vez de Mildred). Neste filme não há palavras escritas nem na abertura, onde os nomes do filme, diretor, atores e equipe técnica são simplesmente narrados. A excessão dos algarismos (como o "451" na parede do prédio dos bombeiros), as únicas que palavras aparecem estão nos livros. É possível que os apaixonados pela leitura venham a sentir-se incomodados com o filme devido às cenas explícitas de livros sendo queimados. O filme, apesar de não ser completamente fiel ao livro (aumentando a importância de alguns personagens e eliminando outros), traz o mesmo espírito do livro, fazendo jus a essa importante obra.


O Autor


Ray Douglas Bradbury (Waukegan, 22 de agosto de 1920; Los Angeles, 6 de junho de 2012) foi um escritor de contos de ficção-científica norte-americano de ascendência sueca. Foi o terceiro filho de Leonard e Esther Bradbury, por causa do trabalho de seu pai (Técnico em instalação de linhas telefônicas), viajou por muitas cidades dos EUA, até que em 1934 sua família fixou residência em Los Angeles, Califórnia. Alguns pseudônimos usados por Ray Bradbury: Doug Rogers, Ron Reynolds, Guy Amory, Omega, Anthony Corvais, E. Cunningham, Brian Eldred, Cecil Cunningham, D. Lerium Tremaine, Edward Banks, D.R.Banet, Willian Elliot, Brett Sterling, Leonard Spaulding, Leonard Douglas, Douglas Spaulding. [SKOOB / Wikipédia]

P. M. Zancan

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